CAMPEONATO GAÚCHO

Crônica de Avenida 0 x 1 Grêmio: os profetas do presente

Nathan Fernandes fez um belíssimo gol, que deu a vitória para o Tricolor gaúcho

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Foto: Everton Silveira/Grêmio FBPA

Feriado de Navegantes em Porto Alegre. Desde a aposentadoria, minha vida adquiriu um mapa já batido. Dias lentos e silenciosos, mas ternos, com minha esposa Lygia e nosso poodle, o Poe. Nossos filhos há tempos se mudaram. Também há os breves diálogos com nosso vizinho colorado, o Joaquim.

O desvio deste hábito ocorria quando o sol alto se anunciava, eu me desprendia da Capital e, como uma miragem, um delírio, aparecia para mim a imagem do litoral gaúcho que, se não tem lá as águas mais mornas, possui uma porção de encantos. Desta vez havia um adendo – meu camarada Jorge me acionou no whats para passar o fim de semana na praia.

Na quinta-feira (1º) ajeitei o carro e me fui. Lygia não quis ir. Alegou que visitaria parentes no interior. Foram ela, Poe e a gurizada.

Nós tínhamos um apartamento na cidade. Mas, em verdade, passei mais tempo na casa do Jorge, que queria aquela resenha lírica maneira. Desta vez havia mais pessoas da família dele por lá. Além do neto, Gabriel, estava sua mãe, filha de Jorge, a Cláudia Berenice, uma mulher ruiva, de aspecto enigmático. Cumprimentei:

– Olá, como vai?

– Pensando se sou um monstro ou se isso é ser uma pessoa?

– … Sim – respondi, estranhando não receber um “vou bem e o senhor?”, mas dei sequência – vejo que as palavras mexem com a senhora.

– Eu prefiro meditar sem palavras e sobre o nada. Escrever é o que me atrapalha a vida. Mas, né… Se não fosse a sempre nova experiência que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

– Perfeito – disse, ainda estranhando, mas encantado – mas não tenha dúvida de que há algo em você que sabe exatamente por que escreve. E faz de teu espírito mero brinquedo.

– Ah, não tenha dúvida. Eu escrevo com o corpo, a única posse real… e o que escrevo é uma brisa úmida… Ainda que às vezes me veja como uma mera digitadora e no teclado sinta minha transfiguração em outrem e minha materialização em objeto.

Desta vez apenas sorri e, de fundo, lembrei-me de Lygia. Mas Cláudia Berenice tinha um ar rebelde, ao mesmo tempo misterioso, ao ponto de ser difícil definir se o que vinha dali era melancolia ou imposição. E ela se gabava desse enigma, ao ponto de seus olhos silenciosos talvez não serem nada mais do que ela colocando uma lupa no meu vazio. Logo eu.. Falando em vazios.

Por sorte o Jorge interrompeu esta interação, que já contaminava minhas certezas.

– Sábado à noite tem Grêmio. Vamos ao mercado, comprar carne e uma cerveja – fui de pronto.

No caminho, Jorge me explicou como Cláudia, embora, assim como o pai, sempre tenha gostado das letras, desde cedo seguiu caminho diverso. Sempre foi mais introspectiva e nada queria com as histórias do pai.

– Muitas vezes quis lhe contar o destino de personagens fantásticos do passado, mas ela perguntava se aquilo era verdade. Um dia, para me fazer um agrado ela disse: “Pai, eu sei que essa história é real, ainda que inventada”.

Eu ri, mais por dentro, talvez por estar no “espírito” de Cláudia Berenice. Além disso, Jorge não pôde perceber meu sorriso em função de meu bigode de longos fios, que havia deixado naquela época.

O jogo

Chegou o sábado à noite. Ritual do churrasco preparado, TV ligada. Grêmio, com vários reservas, jogava em Santa Cruz do Sul contra o Avenida. Valia a liderança porque o Inter havia ganho do Caxias no Beira-Rio.

O primeiro tempo seguiu um roteiro previsto. O Avenida tentava de forma heroica suplantar o time da Capital e o Tricolor chegava com certa naturalidade. Parecia que sairia um gol do Grêmio.

Até que saiu, aos 34, com Nathan Fernandes. Ele mesmo roubou a bola na intermediária, partiu em arrancada, driblou dois e, próximo da área, chutou no canto do goleiro. Jorge já havia me falado do garoto promissor do Grêmio.

Feliz, e após umas cervejas, Jorge disse:

– Jogos no interior do Estado me lembram contos pampeanos. Lembrei de um que ouvi uma vez. Um portenho que abandonou Buenos Aires para se juntar a mercenários nos confins do Rio Grande do Sul. Tinha vontade de liderá-los, mas, após planejar uma sublevação, acabou morto por eles.

– Curta e grossa a história – falei, provocando.

– Ignoro os pormenores de sua aventura.

Eu queria saber o que Cláudia Berenice pensava daquela história. E daquele jogo também. Ela comia carne. Pus os olhos nela, dando a entender que desejava conversar.

– Dedico-me a meu sangue – brincou ela. Eu apenas ri. Ela, mantendo-se séria, continuou – Não tenho nada contra o passado, nem tampouco contra fantasia, mas prefiro os profetas do presente.

– “Já não sois capazes de criar para além de vós…” – foi só o que consegui dizer. Ela assentiu, mas mantendo a dúvida pairando.
É, esses que em mim atingiram zonas inesperadas. Conheço muitas coisas que nunca vi, mas nas quais acredito… Chorando… No mais, gosto das histórias do pai, mas sinto falta de um final silencioso e com gotas frias de chuva caindo.

Tudo que Berenice falava me impactava. Sentia em Jorge uma inveja escondida da filha. Inconfessada e talvez ignorada tristeza… Começou o segundo tempo.

Segundo tempo

Durante a etapa final, poucos atrativos teve a partida. As chances do Grêmio foram melhores. O Avenida mais reclamou da arbitragem. O roteiro foi, então, bem usual. Nosso papo na sala começou a render mais.

A cerveja despertou minha verve, então falava minhas frases prontas, mas às quais eu conseguia dar um estilo. Jorge começou a fazer umas listas em que umas coisas nada a ver umas com as outras apareciam associadas. E Cláudia Berenice fumava e olhava fixo para uma barata no chão.

O jogo se encaminhou para o fim. Jorge se levantou. Havia uma sacada para o luar. Devagar, ele foi até lá. Dei tchau primeiro a ele, depois fui falar com Cláudia Berenice. Acabei confessando minhas impressões:

– Você fala coisas que inquietam a gente.

– E eu tenho sentido falta de escrever, estou há tempos esquentando o corpo para iniciar, ainda que busque relatos frios.

– É, o corpo é a grande razão… Me manda um email – Dei a ideia. Ela achou boa, eu acho, pareceu pelo menos.

Dali em diante, Cláudia Berenice e eu começamos a trocar correspondências sobre visões da vida e do interior desconhecido. Vez que outra trarei aqui para você, Leitor (a) (e).

Renato e mais

Com a vitória, para alegria do Jorge, o Grêmio era líder do Gauchão, com 12 pontos. Aquele lado fantasioso com o “gremismo” tornavam o Jorge um homem interessante. Depois, viria o jogo contra o Novo Hamburgo, na terça-feira (6), na Arena. Mas como era durante a semana – e às 21h30! – possivelmente eu não veria com o amigo.

No outro dia vi que, na coletiva, o Renato, que também tinha verve, falou sobre a atuação da equipe que era normal passar por dificuldades no início do Campeonato Gaúcho. “Não adianta querer exigir bom futebol o importante são as vitórias”, afirmou.

Renato comentou a boa atuação de Nathan Fernandes e explicou sua substituição, por Lucas Besozzi. “Ele sentiu quando levou um ‘tostão’, e quando o ‘tostão’ esfria a perna começa a doer, e ele correu bastante, a perna estava inchada, então decidi trocar”.

No mais, ele reconheceu que o grupo gremista é “bastante reduzido”, que queria ter mais opções, mas que o clube está no mercado. “Os jogadores querem vir, mas os clubes não querem liberar”, disse, completando que é preciso contratar com qualidade. Mas também houve críticas à FGF (Federação Gaúcha de Futebol) pelas condições do campeonato.

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