VALE DO TAQUARI

Estudo analisa as práticas de interação entre migrantes haitianos em Lajeado

Na última década Lajeado, que fica localizada no Vale do Taquari, recebeu um fluxo significativo de haitianos.

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Imagem de Lajeado. Foto: Lucas George Wendt/Divulgação

Os fluxos migratórios, ao longo da história, acompanharam a evolução da humanidade. As pessoas migram em busca de melhor qualidade de vida e condições de trabalho.

Os fluxos em geral seguiam do hemisfério Sul em direção ao Norte. No entanto, especialmente desde 2010, o Brasil e outros países do Sul também têm atraído um contingente significativo de migrantes. Diante desse contexto, compreender as motivações e a forma como eles se inserem nas regiões assume uma importância significativa.

Um estudo realizado por pesquisadores da Univates (Universidade do Vale do Taquari) se dedicou a olhar uma das faces decorrentes das migrações humanas: as práticas de interação entre os migrantes e o cenário estabelecido no local de recepção.

A pesquisa identificou práticas sociais transnacionais na vida cotidiana dos imigrantes haitianos em Lajeado, no Vale do Taquari, possibilitando a sua permanência na cidade ou então as condições para a continuidade do caminho migratório.

Os achados estão vinculados aos resultados do projeto de pesquisa “Cidades médias e os fluxos imigratórios internacionais recentes: o exemplo da cidade de Lajeado na região do Vale do Taquari/RS”.

O trabalho teve por objetivo compreender os espaços de inserção dos imigrantes haitianos na cidade de Lajeado e algumas práticas sociais que dinamizam as mobilidades transnacionais no seu cotidiano.

“Para os haitianos, a imigração é um projeto familiar, que conecta o imigrante a diferentes espaços transnacionais, mantendo os vínculos com aqueles familiares que ficaram no Haiti. Em busca de melhores condições de vida e trabalho, eles acabam se inserindo nas regiões em diferentes dimensões – econômica, política, cultural, social -, e o estudo desenvolvido contribui para procurar entender um pouco mais essa realidade dos haitianos, que hoje representam o maior grupo de migrantes em Lajeado e na região do Vale do Taquari”, ressalta a docente Fernanda Cristina Wiebusch Sindelar.

Destaques do estudo

“É muito bom compreender como os migrantes influenciam e são influenciados pelo contexto econômico das regiões. A chegada dos primeiros migrantes ao Vale do Taquari esteve associada à falta de mão de obra em empresas locais, que recrutaram trabalhadores estrangeiros no Norte do país e trouxeram eles para cá, dando transporte e infraestrutura para que eles pudessem residir em um primeiro momento”, disse Fernanda.

“Atualmente, contudo, a realidade econômica é totalmente distinta do que tínhamos no início da década passada, e analisar a sua inserção no mercado de trabalho e as relações estabelecidas torna-se muito interessante”, complementou.

Grupo com haitiano em Lajeado. Foto: Nicole Morás/Divulgação

Os pesquisadores estudaram a inserção no mercado de trabalho e a renda. Na última década Lajeado recebeu um fluxo significativo de haitianos, os quais, em sua maioria, estão vinculados, no mercado formal de trabalho, ao setor de abate e fabricação de produtos de carne (91,3% em 2020), e muitas vezes ocupam funções que os gaúchos não querem, por serem menos qualificadas, com menor status ou menor possibilidade de ascensão profissional, e, consequentemente, menos remuneradas também.

A remessa de recursos para a diáspora haitiana é considerada um símbolo de prestígio, no entanto, na atual conjuntura, eles têm muitas dificuldades para continuar enviando os recursos para a família que permaneceu no Haiti, em decorrência da crise econômica, desvalorização do real e dificuldades com a pandemia.

Para os migrantes, a mobilidade e circularidade em busca de melhores condições de vida é uma constante. Por isso, muitos deles já migraram mais de uma vez até chegar a Lajeado e continuam pensando em migrar para novas regiões que forem mais atraentes.

Alguns inclusive já estavam na região, migraram e retornaram para cá, por terem família, amigos e conhecerem a região. A migração também não necessariamente envolve todos os membros da família.

Há casos em que o esposo reside em um local, a esposa em outro e, ainda, os filhos, se maiores, podem estar com outros parentes, mas, se isso for para melhorar a condição da família no futuro, o farão.

Em contrapartida a esse movimento migratório, também teve-se contato com pessoas que decidiram se acomodar, fixar residência aqui e empreenderam seus negócios.

Os empreendimentos desenvolvidos por imigrantes haitianos na cidade estão relacionados ao comércio, costura e confecção de roupas, minimercado, filmagens de celebrações festivas e videoclipes, dentre outros.

A religião é um dos pilares da migração haitiana. Em Lajeado, os haitianos fundaram duas igrejas evangélicas, Igreja Evangélica de Jesus Cristo de Lajeado e Igreja Haitiana Betel de Lajeado, onde as celebrações são realizadas na língua materna, o crioulo. São espaços de expressão da fé e de encontro dos migrantes.


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