Obituário: Mikhail Gorbachev (1931-2022)

Mikhail Gorbachev, no mundo ocidental, é quem acabou com a Guerra Fria. Nas ex-repúblicas soviéticas, foi quem aniquilou a URSS e, na Rússia, um “traidor”.

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Crédito: ABC News/ arquivo.

Mikhail Gorbachev, o homem que acabou a Guerra Fria pelo lado soviético e vencedor do prêmio Nobel da Paz em 1990, morreu nesta terça-feira (30). Ele tinha 91 anos e estava internado no hospital clínico Central de Moscou. “Mikhail Sergeyevich Gorbachev morreu nesta noite depois de uma doença grave e prolongada”, diz o comunicado divulgado pelo centro médico, segundo a Tass.

A percepção da figura de Gorbachev é mista. No mundo ocidental, é o homem que encerrou a Guerra Fria, ajudou a derrubar o muro de Berlim e a Cortina de Ferro. Nas ex-repúblicas soviéticas, sua perestroika (reconstrução) e glasnost (abertura) são vistas como o motivo do fim da URSS. Nos últimos anos, foi tratado como traidor pela mídia russa, contralada por Putin.

Filho de imigrantes russo-ucranianos, ele nasceu em 2 de março de 1931 em Stravropol, uma cidade rural no sudoeste da Rússia. Em 1955, ele se formou em direito na Universidade de Moscou, onde conheceu Raisa, com quem se casou em 1953. Os dois tiveram uma filha, Irina Mikhailovna Virganskaya.

Gorbachev assumiu o poder aos 53 anos, em 1985, sendo o oitavo e último líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1917/22-1991). No campo internacional, onde teve uma imagem positiva, foi responsável por acordos de redução de armas com o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan (1981-1989). Também forjou parcerias com potências ocidentais para remover a Cortina de Ferro que dividia a Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em seu período de governo ocorreu, ainda, a reunificação da Alemanha.

Em casa, foi mal visto até o fim de sua vida. Implantou medidas de abertura dentro da União Soviética através da “glasnost” (liberdade de expressão) e da “perestroika” (reestruturação econômica). Muitos russos nunca perdoaram Gorbachev pela turbulência que suas reformas se desencadearam e pela queda em seus padrões de vida.

Quando protestos pró-democracia varreram as nações do bloco soviético da Europa Oriental comunista, em 1989, Gorbachev se absteve de usar a força. A medida era totalmente oposta dos líderes anteriores do Kremlin, que enviaram tanques para esmagar revoltas na Hungria, em 1956, e na Tchecoslováquia, em 1968. Sua atitude – de abandonar a doutrina Brezhnev, pela qual Moscou se reservava ao direito de esmagar dissidentes dentro dos estados integrantes do Pacto de Varsóvia – lhe rendeu um Nobel da Paz, em 1990.

Cercado pela possibilidade de desintegração da URSS, Gorbachev lutou enquanto pode para evitar o fatiamento do bloco. No fim do ano de 1990, sua posição dentro do partido era frágil. Uma ala mais radical tentaria impedir, a todo custo, uma implosão do governo. Em agosto de 1991, um grupo de ultraconservadores soviéticos tomou o poder em um golpe, enquanto ele estava de férias na Crimeia. Boris Yeltsin, o recém-eleito presidente da Federação Russa, reagiu e ajudou a deflagrar um contra-golpe, que permitiu a retomada do poder.

Mas o governo Gorbachev estava com os dias contatos. Repúblicas soviéticas pouco tempo depois começaram a votar referendos pela independência da URSS. Em 21 de dezembro, onze repúblicas decidiram formar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes), esvaziando o poder do Kremlin e pondo fim à União Soviética. Em 25 de dezembro de 1991, em um discurso transmitido por rádio e TV, Gorbachev renunciava ao seu cargo de secretário-geral.

O ex-líder soviético deixou a vida pública em 27 de dezembro de 1991. Tentou, novamente, voltar à cena política em 1996, como presidente da Rússia, mas foi derrotado nas urnas. Em 2000, viu o ex-protegido Vladimir Putin chegar ao poder. Embora concordasse com algumas posições do mandatário russo, acusou Putin de transformar o partido Rússia Unida em uma cópia ruim do Partido Comunista, com autoritarismo flagrante.

Em resposta, a mídia estatal russa pintou Gorbachev como inimigo. Os veículos estatais o retrataram de forma pejorativa, chamando-o de traidor, “fantoche da CIA” e “responsável pelo colapso da União Soviética”. Em seus últimos anos, tornou-se um ativo militante da caridade, após a morte de sua esposa Raisa por câncer.


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