Fome avança no Brasil em 2022 e atinge 33,1 milhões de pessoas

Apenas 4 em cada 10 domicílios conseguem manter acesso pleno à alimentação. País regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990.

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A fome voltou a atingir milhões de brasileiros, conforme pesquisa divulgada nesta quarta-feira (8). Segundo o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, mais de 33 milhões de brasileiros não têm o que comer. O país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990.

A pesquisa aponta que são 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome em pouco mais de um ano. A edição recente da pesquisa mostra que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau: leve, moderado ou grave (fome). A pesquisa é realizada pela Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

Apenas 4 em cada 10 domicílios conseguem manter acesso pleno à alimentação – ou seja, estão em condição de segurança alimentar. Os outros 6 lares se dividem numa escala, que vai dos que permanecem preocupados com a possibilidade de não ter alimentos no futuro até os que já passam fome.

De acordo com o 2º Inquérito, em números absolutos, são 125,2 milhões de brasileiros que passaram por algum grau de insegurança alimentar. É um aumento de 7,2% desde 2020, e de 60% em comparação com 2018. A fome é maior nos domicílios em que a pessoa responsável está desempregada, trabalha na agricultura familiar ou tem emprego informal. Já a segurança alimentar é maior nos lares onde o chefe da família trabalha com carteira assinada, chegando a 53,8% dos domicílios.

“Já não fazem mais parte da realidade brasileira aquelas políticas públicas de combate à pobreza e à miséria que, entre 2004 e 2013, reduziram a fome a apenas 4,2% dos lares brasileiros. As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizados”, avalia Renato Maluf, coordenador da Rede PENSSAN.

Entre os destaques da pesquisa estão o grande número de famílias do Norte e do Nordeste em insegurança alimentar. Os percentuais de famílias com alimentação abaixo do ideal são maiores que a média nacional. Conforme o inquérito, a fome fez parte do dia a dia de 25,7% das famílias na região Norte e de 21% no Nordeste. A média nacional é de aproximadamente 15%, e, do Sul, de 10%.

Nas áreas rurais, a insegurança alimentar (em todos os níveis) também está presente em mais de 60% dos domicílios. Destes, 18,6% das famílias convivem com a insegurança alimentar grave (fome), valor maior do que a média nacional. O índice de insegurança alimentar alcança 65% dos lares comandados por pessoas pretas ou pardas convivem com restrição de alimentos em qualquer nível.

O levantamento ainda aponta que a fome quase desaparece nos lares com renda superior a um salário mínimo por pessoa. Em 67% dos domicílios com renda maior que um salário mínimo por pessoa, o acesso a alimentos (segurança alimentar) é pleno e garantido.

As estatísticas foram coletadas entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir da realização de entrevistas em 12.745 domicílios, em áreas urbanas e rurais de 577 municípios, distribuídos nos 26 estados e no Distrito Federal. A Segurança Alimentar e a Insegurança Alimentar foram medidas, mais uma vez, pela Ebia (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), que também é utilizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em 2020, a fome no Brasil tinha voltado para patamares equivalentes aos de 2004. No entanto, a situação se agravou e muito por causa da pandemia da Covid-19, o desmonte de políticas públicas, a piora no cenário econômico e o acirramento das desigualdades sociais. “A pandemia surge neste contexto de aumento da pobreza e da miséria, e traz ainda mais desamparo e sofrimento. Os caminhos escolhidos para a política econômica e a gestão inconsequente da pandemia só poderiam levar ao aumento ainda mais escandaloso da desigualdade social e da fome no nosso país”, aponta Ana Maria Segall, médica epidemiologista e pesquisadora da Rede PENSSAN.

Comida servida em restaurante. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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